Sábado, 4 de Novembro de 2006

Era uma vez...

Era uma vez uma menina...

Uma menina como tantas outras, com uma casa, uma família, alguns amiguinhos...e um sorriso triste.

Tinha uns olhos azuis grandes e expessivos, ensombrados pela angústia e pelo sofrimento.

Viviam-se dias de amargura, em casa da menina. Os pais zangavam-se com cada vez mais frequência e a separação era iminente.

Naquela dia, ao chegar da escola, encontrou a sua mãe a chorar, como já acontecera antes, mas daquela vez o choro prenunciava algo diferente, terrivelmente diferente.

Havia chegado o dia. Iam partir.

As malas estavam feitas, jogadas a um canto, dolorosamente jogadas a um canto.

"Mãe..."

Não houve resposta...só lágrimas.

A menina tremia...de medo, de agonia...queria gritar, debater-se contra tudo o que se passava dentro dela...

Sentimentos contraditórios, dor, desespero...

Um carro...uma chave na porta...

"Pai..."

Mais lágrimas.

E o momento final...a partida.

Olhou para trás e viu o pai a chorar, deitado na cama...

Essa imagem iria acompanhá-la para o resto dos seus dias.

E nos anos que se seguiram, a menina aprendeu, penosamente, a lidar com a situação.

A escola, a mãe e as irmãs...durante a semana.

Ao fim de semana, passeios com o pai.

Um dia o pai e a menina tiveram uma discussão...uma grande discussão. E cortaram relações.

A menina chorou, o pai chorou, mas de tão iguais que eram, foram impedidos pelo orgulho que lhes era comum de se aproximarem um do outro.

E assim se passou um ano. Um ano desperdiçado que tanto iria lembrar mais tarde.

A certa altura uma tia da menina, irmã do pai, morreu. A sua irmã mais querida e a mais querida das tias da menina.

"O pai está a sofrer..."

Posto de lado o orgulho que lhe feria a alma, ela bateu à porta da casa do pai, a casa que a vira crescer, palco de tantas alegrias e de tanto sofrimento.

E ele veio abrir...o rosto contraído pela perda...os olhos brilhantes pelo reencontro...

"Minha querida filha!..."

"Pai..."

E o abraço...o conforto daqueles braços fortes.

O cheirinho a madeira que trazia na roupa (fruto da profissão de carpinteiro que tão bem exercia).

Choraram e riram, e choraram mais e voltaram a rir.

Juraram nunca mais se afastar.

Passado algum tempo a menina voltou para casa do pai, desta vez na companhia da mãe.

E aí ficaram.

Não posso dizer "viveram felizes para sempre". Mas foram, a certa altura, felizes.

Anos mais tarde o pai partiu. Para nunca mais voltar.

Hoje, a menina, que é uma mulher, lembra-o com amor e carinho, pelas coisas boas e por tudo o que ele lhe deu.

E ele vive, para sempre, num cantinho do seu coração.

 

 

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publicado por picarota310172 às 21:21
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